
Quase
duzentos anos após sua morte,
Jane
Austen continua sendo uma das autoras mais lidas e apreciadas
no mundo inteiro. Ao retratar com argúcia e fino humor os
costumes e valores da sociedade em que vivia, tecendo tramas
de amor e abordando sentimentos humanos universais, a escritora
inglesa conquistou não só os britânicos, como leitores de
todos os cantos do planeta. Não à toa é considerada um fenômeno
literário: seus livros ganham seguidamente novas publicações,
traduções e adaptações para o cinema. No Brasil, onde conta
até com fã-clube, encontram-se disponíveis várias edições
traduzidas de
Orgulho
e preconceito e
Razão
e sensibilidade, os mais famosos, além de outras obras
menos conhecidas, como
Persuasão,
Emma,
A
Abadia de Northanger e
Mansfield
Park.
"Jane fala de família, amor, inveja, interesse, ciúme, diferença
de classes, enfim, de situações e sentimentos humanos básicos
que, mesmo com a mudança dos tempos, nunca deixarão de existir.
É isso que a mantém sempre atual", diz
Celina
Portocarrero, que fez recentemente a tradução de
Orgulho
e preconceito para a L&PM Pocket e agora está traduzindo
Persuasão.
"Através de seus personagens, ela mostra de maneira sutil
diversos tipos de caráter. Em
Orgulho
e preconceito, por exemplo, a presunção do Reverendo Collins
se revela na diferença de linguagem que ele usa. Nos diálogos,
ela expõe a frivolidade das convenções sociais, com aquela
ponta de sarcasmo que os ingleses tão bem sabem precisar.
As frases da protagonista Elizabeth são ilustrativas: -
É
a sua vez de dizer algo, Sr. Darcy. Falei sobre a música,
e o senhor deve fazer algum comentário a respeito do tamanho
do salão, ou do número de pares."
Raquel Sallaberry, que criou há dois anos o blog
Jane
Austen em Português (
http://janeausten.com.br),
declara-se fã de todos os romances da autora, mas constata
que
Orgulho e preconceito é o mais lido e admirado.
"A própria Jane o considerava seu 'filho amado'. Nele encontramos
personagens adoráveis e atuais como Elizabeth Bennet, a heroína
inteligente e respeitadora das normas, mas não dominada por
elas; Mr. Darcy, um herói um pouco arrogante, como devem ser
os heróis; o Sr. Bennet e sua fina ironia; e o obsequioso
Mr. Collins, dono absoluto de minhas risadas. Outro livro
pouco mencionado, mas muito engraçado é
A Abadia de
Northanger, que tem o mais alegre de seus heróis,
Mr. Tilney.
Persuasão, sua última obra completa,
tem o encanto da maturidade e traz observações mordazes sobre
os sentimentos humanos, como
(Os Musgroves) tiveram a triste
sina de ter um filho incorrigível, e a sorte de perdê-lo antes
de chegar aos vinte anos".

Reler
Jane
Austen numa fase mais amadurecida da vida "foi uma descoberta
e tanto" para Raquel. No seu ponto de vista, a sátira discreta,
mas contundente, é a marca mais forte da romancista, que foi
eleita em seu país como uma das prediletas da literatura inglesa.
"Os ingleses se reconhecem nos personagens e percebem logo
que a técnica da autora vai muito além da narrativa agradável.
Tanto que a comparam a
Shakespeare.
Suas obras são sofisticadas e simples ao mesmo tempo. É fascinante
ver a perspicácia, a simplicidade e o humor com que ela escreveu
sobre pessoas reais. Ela fez um retrato de sua época dentro
do mundo em que vivia, uma espécie de classe média alta, composta
de pessoas raramente ricas, porém com posses para uma vida
respeitável e conscientes de sua importância política e cultural".
Jane Austen nasceu em Steventon, no Hampshire (Inglaterra),
no dia 16 de dezembro de 1775, penúltima dos oito filhos do
reverendo George Austen e de Cassandra Leigh Austen. Morreu
em julho de 1817, aos 41 anos, solteira, vítima do mal de
Addison. No prefácio de
Orgulho
e preconceito (L&PM), o poeta
Ivo
Barroso faz um relato interessante da vida e da obra da
autora, ressaltando, entre outros aspectos, sua habilidade
em caracterizar personagens diversos da pequena aristocracia
inglesa:
Tendo vivido no ambiente limitado de uma pequena paróquia
de que seu pai era o 'rector' (uma espécie de pároco-professor),
Jane escreve sobre o que vê e conhece: as tentativas de ascensão
na escala social, o valor das pessoas determinado pela renda
anual, o grau de ignorância dos falsos nobres, a maldade das
pessoas boas e, mais que tudo, a luta das mulheres para se
casarem, (...) Mas o que ainda hoje mais nos surpreende nas
deliciosas narrativas de Jane Austen é seu tom "moderno",
a agilidade, o suspense, e mesmo o "gancho", que imprime um
sabor de telenovela, naturalmente de alto nível.