De seus livros, muitos críticos
e estudiosos já falaram e ainda vão falar muito.
Casa-grande
& senzala,
Sobrados
e mucambos,
Ordem
e progresso, entre tantos mais que ele escreveu sobre
a formação do povo brasileiro, são referências essenciais
para quem quer compreender o Brasil. Mas de como era e o que
pensava
Gilberto
Freyre, quem melhor para falar do que um amigo e especialista
em sua obra?
O ensaísta
Edson
Nery da Fonseca, professor emérito da Universidade de
Brasília, teve "o privilégio de conviver com ele", como diz,
e de acompanhar de perto sua trajetória. Era seu compadre,
amigo íntimo e confidente. "Ele foi o maior mestre que eu
tive. Era uma pessoa encantadora, recebia todos muito bem.
Fabricava em casa um conhaque de pitanga, cuja receita dizia
ser um 'segredo maçônico', e ele próprio fazia questão de
servir aos visitantes em cálices de cristal e bandeja de prata.
Era muito requintado nesse ponto, mas sem nenhuma pose, com
a maior naturalidade", recorda com afeto.
"Eu costumo definir
Gilberto
Freyre não propriamente como o antropólogo, o sociólogo
e o historiador social que ele foi, mas como um grande sedutor.
Ele nos seduzia - mesmo a quem não o conheceu - com suas ideias
originais a respeito da formação brasileira. Mostrou que quem
fez o Brasil não foi nem a igreja católica nem a coroa portuguesa,
foi a família patriarcal, os portugueses, os índios e os negros.
E ele defendeu a miscigenação, que era considerada, até por
grandes sociólogos, um mal para o país. Para Gilberto, o mal
foi a subnutrição causada pelos alimentos trazidos de Portugal,
que passavam dias e dias naquelas naus e acabavam se estragando.
Era por causa dessa alimentação deficiente que o povo brasileiro,
no início, tinha aspecto de subnutrido."
A sedução de Gilberto Freyre, entretanto, vai além da extraordinária
análise que ele fez da sociedade brasileira. "Ele nos seduzia
também pelo estilo literário", ressalta Nery da Fonseca. "Gilberto
foi acima de tudo um escritor literário, muitas vezes criticado
por sua linguagem irreverente, que fugia aos padrões acadêmicos
dos cientistas sociais. Seu estilo se distinguia pelo uso
de dois elementos singulares: o 'imagismo', isto é, o uso
de imagens para exprimir as ideias, como se a palavra não
fosse suficiente, e a 'enumeração caótica' - sequência de
palavras vinculadas a uma ideia, mas sem ligação entre si.
No livro
Sociologia
da Medicina, por exemplo, quando define a civilização
atual como civilização do homem sentado:
(...) sentados
em sofás, em cadeiras, em cadeiras de balanço, sentados nos
escritórios, sentados nas fábricas, sentados para assistir
jogos de futebol, sentados nos aviões, nos trens, sentados
andando e sentados descansando..."
Na série
Introdução ao estudo da sociedade patriarcal no
Brasil,
Gilberto
Freyre aborda desde o período colonialista até o Brasil
República. São três volumes, com títulos simbólicos:
Casa-grande
& senzala, publicado pela primeira vez em 1933, hoje com
mais de 50 reedições, retrata os primórdios da sociedade patriarcal,
a relação dos senhores com os escravos, os hábitos e a sexualidade.
Sobrados
e mucambos analisa a decadência do patriarcado rural e
o desenvolvimento urbano, com os senhores mudando-se para
grandes sobrados, na cidade, e os escravos libertos, abandonados
pelo Estado e pela Igreja, construindo mucambos para morar
- começou aí a pobreza brasileira. E o terceiro,
Ordem
e progresso, abrange o período de transição da monarquia
para a república e a expansão industrial.
Ordem
e progresso traz uma enumeração caótica de tudo o que
caracterizou aquela época: estilos de residências, de móveis,
de automóveis, de roupas, de chapéus..., incluindo os fenômenos
da moda, como os ataques histéricos nas saídas de enterros
e em outras situações dramáticas. "Eu assisti a esses ataques
quando era menino, as moças davam gritos e caíam duras no
chão, não estavam fingindo não, era preciso que o médico aplicasse
uma injeção de óleo canforado", conta Nery. "O Gilberto era
muito impressionado com o fenômeno da moda, que atinge até
a parte fisiológica das pessoas. Há inclusive um livro dele
sobre o tema,
Modos
de homem & modas de mulher".
Uma característica marcante de Gilberto Freyre, ressaltada
pelo amigo, é que ele não gostava de conclusões. Isso provocava
a reação de críticos, que elogiavam muito sua obra, mas faziam
uma restrição: o livro não conclui. Ele concordava e esclarecia:
Meu empenho não é em concluir, é em sugerir, porque a verdadeira
ciência é humilde. "O Gilberto dizia que, quando você
conclui, você fecha o assunto, como se não houvesse nada mais
a acrescentar. No entanto, o saber está sempre progredindo.
Introdução a, em torno de, a propósito de são expressões
frequentes em seus livros e ilustram essa sua prudência científica
de não querer ser definitivo. Ele era um ensaísta, não um
tratadista".
Gilberto Freyre será o homenageado da FLIP 2010, a famosa
festa literária internacional realizada no início de agosto
em Paraty (RJ). No evento, sua obra será debatida de diversos
pontos de vista - da antropologia, da sociologia, da literatura
-, e
Edson
Nery da Fonseca foi convidado a participar da mesa
Ao
correr da pena, sobre a escrita de Freyre. Autor de vários
livros, entre eles
Vão-se
os dias e eu fico, de memórias;
Estão
todos dormindo, sobre grandes escritores de quem foi amigo;
e
Em
torno de Gilberto Freyre, Nery vai ressaltar a sedução
dos textos do grande historiador social. "O Gilberto tem um
vocabulário muito rico, sabe? Mas não queria ser hermético,
usar terminologias científicas, pois queria ter leitores de
todos os níveis. Muitos escreveram sobre o Brasil, mas ninguém
fez uma interpretação tão original e autêntica como ele".
| Curiosidade: Edson Nery da Fonseca conta que
Gilberto Freyre tinha intenção de escrever o quarto
e último volume da série iniciada com Casa-grande
& senzala. O título seria Jazigos e covas rasas,
a última morada dos senhores e dos escravos. "Ele preparou
uma grande documentação para escrever esse livro, mas
não escreveu. Dizia que a documentação tinha sumido
de sua casa em Apipucos. Madalena, mulher dele, dizia:
Gilberto, ninguém ia entrar aqui para pegar isso! Minha
explicação é a seguinte: Ele não escreveu porque não
queria concluir nada". |